Conferência sobre a Afrocentricidade em Paris entre 12-13/05/2012

“Vendido, traidor, espião da China, impostor, desmascarado, ‘você está liquidado’, ‘cão dos brancos etc’.” Estas foram as palavras escolhidas pelos adeptos da negritude e da egiptologia negra para me desqualificar nas redes sociais após a publicação do meu artigo, a dez dias atrás, intitulado “Os Erros dos nossos Predecessores”. Certamente não foi aleatória a minha escolha de escrever e publicar esse texto dez dias antes do nosso encontro de dois dias sobre Afrocentricidade, aqui em Paris.

Não sou afrocentrista, mas seremos nós condenados a precisar compartilhar 100% as mesmas ideias para podermos nos encontrar e dialogar? Eu aceitei o convite para estar entre vocês porque creio na unidade, creio no respeito mútuo, mesmo quando não compartilhemos certas ideias. Publicar esse artigo dez dias antes deste encontro foi uma espécie de estratégia; e os insultos lançados contra mim vindos dos seus adeptos constituem a prova de um mal de raiz da nossa comunidade que consegui demonstrar através desse texto. Minha intenção era a de evidenciar um elemento fundamental da fraqueza intelectual da nossa comunidade: o pensamento único. Nossa comunidade reproduz, sem se dar conta disso, os comportamentos de obediência a uma linha diretriz da qual não consegue se afastar. Não conseguimos conceber que todos podemos buscar a mesma finalidade sem obrigatoriamente passar pelo mesmo caminho. E é neste nível que minha dissidência intelectual mostra todo o seu profundo valor em relação a meus irmãos e irmãs que me precederam na coragem de nos exprimir sua visão de mundo e nos propuseram suas próprias soluções depois de tantos séculos de humilhação do nosso povo.

Em Sociologia foi demonstrado que o pai educa o filho para ocupar o seu posto no sistema. Se ele é um diretor, educará seu filho para ser tornar diretor. Se ele é operário formará os seus filhos no plano ético e moral para que se tornem operários. Por exemplo, a prioridade da educação que um operário transmite aos seus filhos é a obediência, ou seja, ele parte do princípio de que um “manobra” [subchefe] julgará que seu filho ou sua filha é uma criança bem educada se a criança for completamente submissa às suas injunções, bem como se aceitar seguir sem questionamentos sua visão e intepretação de mundo. Assim agindo, em perfeita boa fé, ele priva seu filho da capacidade de se rebelar no sistema que o mantém no estado inferior de operário, de “manobra”. Concomitantemente o patrão de uma usina vai educar seu filho para ser alguém criativo. Isto é, para que tenha constantemente novas ideias, novos projetos que, em última análise, irão perenizar sua superioridade e dominação do outro. O patrão não deseja que seu filho obedeça cegamente a todas as instruções a ele dadas e sim que se mostre capaz de demonstrar, com argumentos convincentes, sua recusa em seguir determinada regra ou diretiva. Neste nível se preparam os anticorpos ante os concorrentes externos.

É essa lógica é transponível a um povo, a um continente, a uma raça humana. Nosso povo repassa uma educação do proletário, subserviente ao extremo. Se alguém diz alguma coisa, não se pode questionar, não se pode criticar; nada se pode fazer senão aderir como seus discípulos. Eu porém reivindico meu direito de utilizar o meu próprio cérebro para me manter sempre sempre crítico e consciente dessa faculdade. Quando se observa a história europeia se constata que após os 1.000 anos de pensamento único entre os séculos V e XV, ocasião em que o poder religioso foi mais virulento, teve início o movimento cultural e intelectual de dissidência na Itália, a chamada Renascença.

Enquanto a educação dos dominadores europeus deve deixar espaço para a crítica (o jornal Francês “Marianne” classificou a Sarkozy como embusteiro) a menor crítica a um simples ministro resulta em prisão em vários países africanos. Trata-se da interiorização da submissão, pois tais comportamentos revelam a aceitação do servilismo e do pensamento único. Ao falar de nossos predecessores, respeito Ghanéen Nkrumah e o cito constantemente, porém a tendência da sua visão marxista à época, assim como a de Julius Nyerere, me torna muito crítico. E apesar de Léopold Sédar Senghor ser celebrado em toda a parte na França como um valoroso filho da África, reservo-me o direito de tratá-lo como traidor. O Cheik Anta Diop contribuiu para o despertar da consciência das populações de origem africana, sobretudo no Caribe e nos EUA, contudo não desejo compartilhar sua concepção de base. Primeiramente porque os africanos existem desde 100.000 anos, contra 20.000 anos dos europeus. Remontar 100.000 anos de história de um continente a algumas centenas de anos de existência de uma civilização desaparecida não é sinal de força, mas de fraqueza. E quando se desencadeia uma batalha, pois estamos em guerra, não devemos iniciá-la enviando sinais de fraqueza ao inimigo.

Eu rejeito prontamente que se pretenda o pensamento único entre nós; isso seria o fim de toda a esperança de mudança no destino do nosso povo. Quando uma receita não funciona deve-se ter a coragem de fazer o balanço e de mudar de política. Proponho outra política baseada no despertar dos jovens e no seu empoderamento econômico como preâmbulo de toda a mudança do nosso destino. Talvez eu esteja enganado, mas desejar sufocar isso é um erro.

Nossos ancestrais e predecessores não responderam às nossas preocupações do momento. Se assim não fosse, como explicar que nação alguma entre nós tenha prosperado? Eles nos deram suas respostas que acreditavam nos transmitir com sinceridade; cabe a nós verificá-las, validá-las ou não em função daquilo que hoje nossa Inteligência permite fazer. É dentro desta lógica, a de permitir àqueles que nos seguirão de tomar a liberdade ou não de se apoiar nas nossas batalhas de hoje, que todos os meus textos trazem uma data e frequentemente um local de redação. Isso não é aleatório. Isso por que em 30, em 50 anos, esses textos só poderão ser úteis aos nossos descendentes se estes forem capazes de contextualizá-los no nível prático, mais sobretudo de situá-los no plano histórico e decidir se convém validá-los e integrá-los ou não, primeiramente em função dos resultados das contribuições desses textos as quais eles terão tido tempo de verificar na sua vida cotidiana, mas também em função das eventuais necessidades de oportunidades de explorar essa fonte em meio a tantas outras. A bem do fato não existe verdade boa para todas as épocas, esta constitui a triste realidade que representa a base para o fim dos impérios, mesmo os mais poderosos. Texto algum é válido para sempre. Existem várias verdades em função de períodos e de circunstâncias. Mesmo a ciência duvida dela mesma, e por isso evolui. A História é construção inicialmente subjetiva de acontecimentos do passado, pois a própria seleção de fatos do passado a serem recontados é subjetiva e também a minha interpretação desses fatos deve ser suficientemente ultrapassada. A dúvida é o início da inteligência humana. Sempre aconselho meus estudantes a duvidar de tudo, sobretudo daquilo que eu lhes ensino, afim de que eles possuam a capacidade de expor os meus ensinamentos à prova dos fatos e de, assim, construir eles mesmos a sua própria verdade.

PAN-AFRICANISMO OU FEDERAÇÃO AFRICANA?

Voltemos às coisas sérias, e eis um sério ponto de divergência entre os afrocentristas e eu. Eles defendem o pan-africanismo, enquanto eu sou pelos Estados Unidos da África. Estas duas visões não são compatíveis. Porém aceitei vosso convite na esperança que vossa batalha busque logo a convergência que tire a África das garras do seu predador histórico, a Europa. O pan-africanismo nesceu fora da África e visa principalmente a criação de uma nação de populações negras. Como bem fizera observar o Presidente egípcio Gamal Abdel Nasser a seu homólogo Ghanéen Kkrumah, pan-africanista à época, uma nação composta por povo negro, ao se emancipar, iria se parecer com a Libéria onde, depois da sua criação, são os 5% da população negra regressa dos EUA que comandam os 95% da população autóctone, e isso com a ajuda e influência dos Estados Unidos aos seus (i)emigrantes. Isso é bem demonstrado pela fuga pretensamente incrível de uma prisão de alta segurança dos EUA de um certo Charles Taylor para ir tomar o poder na Libéria. O desdobramento dessa história é conhecido. O drama da África é que seus filhos fora do continente sofrem, sobretudo no Ocidente, tamanha discriminação que quando retornam à sua terra encontram-se pervertidos por uma carga de condescendência, de superioridade do tipo colonialista de maneira que logo se tornam um perigo para a própria estabilidade do continente.

É principalmente por isso que não sou pan-africanista, não sou favorável a uma nação negra onde certamente trocaríamos os predadores de pele clara por outros de pele mais escura. É por isto que fiz outra escolha, a de me bater pela construção da Federação Africana; fiz a escolha de uma consolidação, de uma unidade continental africana, fiz a escolha da construção dos Estados Unidos da África. Meus textos se destinam aos filhos da África, do Cabo [da Boa Esperança] ao Cairo, da Argélia a Gaborone, de Antananarivo a Túnis, pois nossa diversidade é nossa principal força. E nosso imenso território de 30 milhões de Km² liberto das barreiras e fronteiras artificiais, que nós não escolhemos, permanece a base vital de partida da nossa batalha pela conquista da nossa dignidade e prosperidade. E para mim a prioridade é ocupar o meu cérebro ao me perguntar constantemente: como o nosso povo poderá conquistar o poder econômico? Como poderá o nosso povo deixar de ser o escárnio do mundo? Como poderão os nossos jovens deixar de morrer nas travessias do Mediterrâneo? Como poderão nossos jovens deixar de abandonar nosso continente para ir inchar a massa de proletários no Ocidente?

Escrevo meus artigos, gratuitamente colocados à disposição do nosso povo, para tentar encontrar uma resposta a estas indagações por tanto tempo não respondidas. Não o faço por qualquer glória pessoal, pois não existe glória alguma num campo em ruínas. Não procuro a unanimidade em torno das minhas ideias, pois pretender que todos compartilhem nossas ideias é começo de ditadura. Não são os adjetivos de vigarista, de sem diploma, de impostor etc. a mim atribuídos por meus próprios irmãos e irmãs o destino de todos aqueles que desejam tentar romper os grilhões da escravidão? É tamanha a acomodação a esses grilhões que não se compreende como alguém venha a falar bem da China quando esta deixa seu opressor em apuros.

Diploma? Sim, aqueles que me acusam de não possuir diploma algum têm razão. Não tenho um só canudo de papel. Toda a força de minhas ideias expostas nos meus textos, não pode ser remontada à concessão de um diploma. Em 22 de abril de 1991, ante um júri de 11 professores italianos na Universidade de Pérouse, eu sustentei uma tese sobre o desenvolvimento da África, após o que o Reitor deveria me entregar um documento no qual ele se referia ao poder que lhe concedia o Presidente da República da Itália em me conceder o título de Doutor em Economia. 21 anos se passaram e quando releio essa tese tenho a honra daquilo que eu disse e sustentei. Tenho a honra até de me fazer chamar de doutor, pois fui formado num sistema construído para subjugar a África. Estudei teorias econômicas concebidas por parâmetros ocidentais que visavam garantir a superioridade do Ocidente. Foram meus 14 anos de permanência na China que me serviram de espelho para ver a mim mesmo, ver minha sociedade, ver o Ocidente e compreender toda a inutilidade para a África ou, pior, toda a periculosidade para a África, das teorias econômicas apregoadas no Ocidente. Estas são encabeçadas pela concepção cristã da maioria das teorias econômicas ensinadas no Ocidente, como a que postula a ditadura do indivíduo sobre a comunidade, a desagregação do grupo, da aldeia ante o indivíduo, com a consequente falta de equilíbrio e harmonia sociais por um lado e de corrupção, assassinatos e outros delitos por outro.

Sim, eles têm razão em dizer que não possuo diploma, pois o que eu deveria fazer depois de 21 anos e que faço tardiamente hoje foi a partir do que me ensinaram para reescrever outro modelo econômico para a sociedade africana, a partir das aldeias, a partir da nossa religião africana. Cabe responder a pergunta: como poderão as aldeias africanas produzir recursos? Como, na África, poderá o dinheiro deixar a aldeia para chegar à cidade sem passar pelo sistema ocidental de desenvolvimento urbano? E como fazê-lo sem a gestão infelizmente imposta à África por economistas africanos, como eu formados no Ocidente? Para completar essa ação lançamos a Operação África 2021, para fazer da África a terceira potência econômica do mundo em 2021. Junto com minha equipe, estamos em processo de escolha de aldeias-piloto em Camarões onde testaremos a validade real de tal teoria. Esses são os resultados que permitirão modificar e ajustar uma reformulação desse modelo em que reivindico fazer de nossas aldeias o centro da defesa da soberania africana pela capacidade de dar ao Estado central aquilo que tanto lhe falta, o dinheiro. Neste propósito ministro a dois anos cursos gratuitos de geoestratégia africana através do meu blog. O objetivo principal é o de criar sólida base de amor próprio africano e tentar indicar aos jovens africanos o caminho a seguir para a conquista do poder econômico. O destino quis que nossos predadores ocidentais, que cometeram nas nossas nações todos os erros do passado e do presente, achem-se em irremediável situação de falência, falência moral, falência espiritual, falência material. Assim o momento se mostra propício para que a África busque a transição para a superioridade mental que a permita avançar. Para chegarmos a isso não temos precisamos nos equipar com armas neste trabalho, mas apenas usar nosso cérebro e nossa capacidade intelectual de discernimento e engajamento. A partir de setembro de 2012 vou publicar o verdadeiro mapa do mundo com suas verdadeiras proporções. Isso revelará todos os ardis, as várias mentiras e os blefes invisíveis utilizados pelo Ocidente para nos convencer de que não temos outra escolha senão a de permanecer seus escravos. Eu me posiciono a respeito porque viso indicar a nossos jovens aonde enterradas as minas no seu percurso para assim permitir que avancem mais rápido. Eu posso localizar uma mina; outros de vocês descobrirão mais minas. Por isto estou aqui; peço que unamos nossas forças, quaisquer que sejam nossas divergências, para reforçar os componentes dessa Geoestratégia africana que deveria ser preâmbulo nos estudos de todos os africanos qualquer que seja a filiação. Estamos em guerra, estamos numa batalha e é um erro avançar sem considerar esta variável, como se tudo estivesse propício. Todo africano, esteja onde estiver, deve ser um espião pela África para assim permitir que seu continente compreenda os segredos das outras nações; a miséria mental e a miséria material não representam uma fatalidade desde que se compreenda que elas se originam na miséria espiritual. Não podemos construir uma África orgulhosa e próspera traindo aos nossos ancestrais e seu culto, para adorar os ancestrais dos outros e seus cultos. Um africano que crê que um eurasiano caminhou sobre as águas, multiplicou pães e peixes, mas não crê em seu próprio ancestral tem alguma coisa que não vai bem na sua cabeça e nós devemos ajudá-lo, mesmo através das diferenças entre nossas ações; eu com a Geoestratégia, vocês com o Afrocentrismo, pois ao se observar a vida de diferentes povos constata-se facilmente a impossibilidade de qualquer prosperidade material numa miséria espiritual, numa miséria mental. Partir das nossas aldeias para promover o desenvolvimento dos nossos países é partir do respeito aos nossos ancestrais como divindades, é ter nossos dois pés solidamente plantados no nosso território para nos assegurarmos de que, apesar das adversidades de percurso, não tombaremos todos juntos. A aldeia sempre estará lá como símbolo da nossa autenticidade, da nossa sinceridade moral, do nosso pacifismo histórico. A aldeia representa a confiança de sermos nós mesmos e de sermos o que queremos ser.

Paris, 13/05/2012

Jean-Paul Pougala

Traduzido do francês para o português por Attila Blacheyre

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