Europa, gênese da corrupçâo

Traduzido do francês para o português por Attila Blacheyre, (atblacheyre@hotmail.com) Universidade de Brasília.

 “Os políticos são todos corruptos” isso é o que sobressai de uma sondagem realizada na França pelo Instituto de Estudos de Marketing e Opinião Internacional TNS-Sofres, publicada pelo Journal du Dimanche de 28/11/2011 a qual revela que 72% dos franceses acham os políticos franceses “mais corrompidos”. Esta, portanto, é a opinião de três quartos dos franceses. Esse triste record vem em seguimento a vários escândalos de corrupção política. Em 1977, na primeiríssima pesquisa para medir a percepção dos cidadãos sobre a corrupção política, 36% dos franceses julgavam serem os políticos corruptos; em 2002 esse percentual subiria para 58%.

Quando se observa a história dos escândalos políticos pode-se facilmente concluir que a corrupção política é tão velha como a própria política. Nos reinos o monarca, senhor de todo os negócios e posses móveis e imobiliárias, não precisava roubá-los ou cometer atos de corrupção para possuí-los. Só após a Revolução Francesa começaria a verdadeira corrupção política. Pode-se assim constatar um acontecimento importante, o 2 de dezembro de 1887, com a renúncia do Presidente da República Francesa Jules Grévy, como epílogo de gigantesca história de corrupção no mais alto nível de Estado. À Frente do Estado francês o Presidente Grévy constituíra −? junto com seu filho Daniel Wilson, deputado do Vale do Loire, e com o general Caffarel −? uma verdadeira associação de malfeitores dedicada ao tráfico de condecorações, principalmente as da Legião de Honra. Wilson e Caffarel dispunham para esse intuito de um escritório no interior do próprio palácio do Elysée de onde vendiam as condecorações por até 100.mil francos da época a homens de negócio. Antes da venda, as negociações ocorriam no interior de um bordel administrados por dois proxenetas de nome Ratazzi e Limouzin.

Quando em 30 de janeiro de 1879 −? após a renúncia do Presidente da República, o duque Mac Mahon −? Grévy foi eleito por 563 votos para sucedê-lo, ele, para marcar o momento de ruptura e também a sua integridade moral, afirmou em seu discurso de investidura: “Jamais virarei as costas ao povo”. Oito anos mais tarde precisou renunciar após haver virado as costas ao povo para se ocupar dos seus interesses pessoais. Em 200 anos nada mudou; os políticos seguem igualmente corruptos, porém tudo maquinaram para ocultar os efeitos de seus atos lesivos e da sua desonestidade. Em 1879 Grévy vendia medalhas e, flagrado, teve de renunciar imediatamente. Hoje a corrupção se refinou muito na Europa e dificilmente alguém vai para a prisão.

Em 12 de dezembro de 2011, segundo revelação do jornal alemão Die Zeit, foi o Presidente da República Federal da Alemanha, Christian Wulff, quem ameaçou por um comunicado a Kai Diekmann, redator-chefe do tablóide der Bild com uma “ruptura definitiva” entre a Presidência e o grupo de mídias de Axel Springer. Wulf, que deve seu cargo de Presidente da Alemanha não ao povo alemão e sim à chanceler Angela Merkel, se deixara corromper pela esposa de um homem de negócios ao se beneficiar de empréstimo imobiliário de 500 mil euros com juros a ele favoráveis.

Em 15 de dezembro de 2011 fora o sucessor de Grévy, Jaques Chirac de 78 anos, que escapara, através de sursis da Corte de Paris, de dois anos de prisão por desvio de fundos públicos e abuso de poder na sua gestão entre 1977 e 1995, isso graças a uma “poção mágica” utilizada em toda a Europa chamada IMUNIDADE.

IMUNIDADE DOS ELEITOS

Do Reino Unido à Espanha, passando pela Bélgica, Dinamarca, Holanda, Grécia, Portugual e outros. .A quase totalidade dos países europeus votou por leis que permitem a todo delinquente, que consegue se eleger no Parlamento, não mais ter medo da justiça.

A GRÉCIA

O setor onde a corrupção mais se alastrou entre os políticos europeus é o do armamento. O exame da questão leva à compreensão do motivo para a Grécia chegar à falência, pois se descobre que um dos países que mais espoliou essa nação foi a Alemanha ao corromper políticos gregos para a compra dos mais inúteis equipamentos, ou tornando a Grécia um dos países mais fortemente armados do mundo ante hipotético inimigo que, por ironia do destino, é a própria Aliança Militar Ocidental a qual determina que, se um país for atacado, toda a Aliança virá em seu socorro. Porém o que se esqueceu de dizer é o que será feito por essa organização caso o ataque seja por uma nação da própria Aliança. Sobre esta fantasia foi gerado um vazio favorável à criação de uma psicose artificial de um inimigo fantasma vindo da Turquia, contra o qual os helênicos deveriam armar até os dentes. Isso, em todo o caso, foi o que os fabricantes de armas alemães argumentaram junto aos políticos gregos e é o que estes últimos disseram à sua população, ampliando a psicose de maneira exponencial.

Em 11 de abril de 2012 o povo grego descobriria a negociata: Akis Tsochatzopoulos, 72 anos, membro fundador do Partido Socialista Grego e Ministro da Defesa entre 1996 e 2001, foi detido na sua luxuosa mansão situada diante do museu da Acrópole na rua mais cara de Atenas. O senhor Akis fora acusado de haver recebido 20 milhões de euros para a assinatura de contratos de armamentos com empresas, principalmente alemães, das quais recebeu 8 milhões de euros para engajar o país no caminho de pesada dívida por encomenda em 2000; isso pela compra de quatro submarinos alemães ao custo de 1,6 bilhões de Euros do grupo industrial MAN, este multado em 160 milhões de Euros por contravenção por um tribunal alemão devido à prática de fazer da corrupção uma nova técnica de venda dos seus submarinos a outras nações em crise financeira como Portugal (60 milhões de dólares pagos em um só ano).

Em março de 2012 soubemos pelo jornal diário grego Khatimerini que a Siemens e a Grécia haviam fechado acordo para pôr fim a 10 anos de litígio devido à espoliação do país por esta empresa por meio de políticos corruptos. Nos termos deste acordo, a Siemens renunciava a 80 milhões de euros de propina ao Estado grego; pagaria 90 milhões de euros a este último, além de ter de injetar 100 milhões na sua filial grega. O negócio ocorreu entre 1990 e 2002, ocasião em que a Siemens alemã pagou milhões aos políticos gregos para conquistar o mercado das telecomunicações e dos transportes, muito vantajoso para a Siemens. Até a presente data a lista de políticos alemães corrompidos pela Siemens é mantida em segredo pela Alemanha; apenas Angela Merkel, chanceler alemã, acha-se a par de todo o processo de corrupção, e também dos nomes e dos montantes destinados a cada político grego. E o nome de Akis Tsochatzopoulos, recolhido à aposentadoria por idade, parece surgir como o bode-expiatório que a Alemanha quis oferecer como engodo ao povo grego para, assim, desviar a atenção dos seus verdadeiros propósitos e dessa forma manter esses outros políticos ainda em função e forçá-los a assinar todos os planos de rigor apresentados pela Alemanha em nome de toda a União Europeia. Esse é o fato, pelo menos na opinião de Danaï Bagogiannis, membro do Comitê Político de Syriza (partido de esquerda grego contra o qual toda a Europa, incluso o Partido Socialista Francês, foram conclamados a votar nas eleições legislativas de julho de 2012). Convém relembrar que a Ferrostaal, a sucursal grega do grupo alemão MAN, forneceu provas, ante um tribunal alemão, do pagamento do montante total de 60 milhões de euros aos políticos gregos. A pergunta é: por que o único nome da lista pública é o de Tsochatzopoulos, o único eximido pela aposentadoria? Akis embolsou 8 dos 60 milhões. Quem são aqueles que cooptaram os 52 milhões restantes? Esta pergunta, ainda não respondida ante a opinião pública grega, configura um dos elementos para a perda da soberania do país, longe dos diferentes planos de austeridade, pois quando os políticos de uma nação são corruptos, toda a nação está vendida, e em dívida.

A isso se acrescenta uma curiosidade que nos leva a citar Yanis Varoufakis, professor de Economia na Universidade de Atenas, quando ele declarou a Roxane McMeeken, jornalista do The Independent na sua edição de 17/11/2011: “Enquanto os hospitais gregos carecem de tudo, o orçamento para escapar do ataque da União Europeia e do FMI é o das despesas militares”. E ele acrescenta: “A Grécia é um cliente desproporcional para o setor de armamento. Comparando-se ao tamanho do país, a imensidão do gasto é ridícula”. Aquilo que Yanis procura denunciar é o fato de que o Presidente francês Sarkozy e a chanceler alemã Merkel mostravam-se os mais engajados em todas as frentes da crise aparentando desejar verdadeiramente salvar a Grécia, todavia houve a amarga constatação de que a Grécia é o país que mais gasta sua riqueza com armamentos e torna-se até a primeiríssima cliente do armamento alemão e a tarceira da França. A Alemanha, principal fornecedor de armas à Grécia, controla 58% das suas despesas militares. E quando o plano de austeridade afeta creches e hospitais, mas não o estoque de armas, cabe a pergunta: até onde pode chegar a imoralidade política na Europa?

FRANÇA

Na França os políticos inventaram um sistema de corrupção branca acobertada e que se chama PPP (Parceria Público Privada). Sob tal sigla se ocultam as piores espoliações cometidas contra o povo francês por seus políticos. Trata-se principalmente de se privatizar na surdina os serviços públicos, entregues a empresas favorecidas por ocasião da saída de todos os políticos que deixam os postos de ministros ou deputados. O exemplo mais flagrante é o da companhia VEOLIA ex-Vivendi que doravante se acha presente em todos os setores do nascimento às pompas fúnebres e em quase todas as cidades francesas ela age em prerrogativa de monopólio privado para gerir os serviços de transportes públicos, bem como as rodovias, as águas e, a partir de agora, até as Universidades.

Mas o que é a Veolia?

Para traçar o perfil da moralidade da Veolia, presente em 60 países, convém remontar a três fatos:

– Foi necessário um referendum da população de Berlin para se tomar conhecimento dos acordos secretos assinados em 1999 entre a Veolia e os políticos da capital alemã para a privatização da água na cidade.

– Em 11 de outubro de 2011 a Administração Civil Israelense, respondendo à ONG WHOPROFIT (quem se beneficia [com a ocupação]), confirmou que a filial local da Veolia coleta o lixo israelense enterrado em território palestino, na localidade de Toyland no vale do Jordão.

Quando em 2010 Jean Luc Touly escreveu o livro “A Água das Multinacionais” para relatar seus trinta anos de serviços, findos em 2006, junto à Veolia e à máfia do sistema francês da PPP, a Veolia lhe ofereceu 1 milhão de euros para impedir a venda desta obra. Evidentemente ele recusou. Vale acrescentar que, baseado nesse livro, existe um documentário muito bem feito: “Water makes Money” cujo vídeo é acessível pelo Youtube no endereço:

– A Veolia −? após convencer a cidade de Noirobi, capital do Quênia −? a dispor de seus serviços de distribuição de água potável, propôs também demitir 3.500 funcionários quenianos para substituí-los por 85 funcionários franceses… Ao dobro do custo da folha de pagamento dos 3.500 quenianos.

O SEDIF (Syndicat des Eaux d’Île-de-France = Sindicato das Águas das Ilhas Francesas) agrupa 144 comunidades da metrópole parisiense para fazer frente ao grupo privado Veolia (antiga Vivendi). Ele fornece água a 4 milhões de parisienses há 80 anos. Ao longo de 30 anos uma única pessoa chefia o SEDIF: o Sr. André Santini que, durante esse longo mandato, acumulou também o cargo de Ministro da Função Pública, bem como de Deputador e Prefeito de Issy-Les Moulineaux. No documentário Water Makes Money é apresentada a prova, por documento, que em 11 de agosto de 2008 o Sr. Santini envia membros do SETIF às 144 comunidades. Porém ele se equivoca e usa papéis timbrados da Veolia. Pergunta: o que faziam os papéis timbrados do controlado em posse do suposto controlador? Que outras atividades o suposto controlador estatal faz em favor da supostamente controlada empresa privada Veolia, a ponto de dispor de, no mínimo, 144 papéis timbrados desta?

A ILUSÃO ESCANDINAVA

A FINLÂNDIA

Em todas as classificações mundiais sobre o combate à corrupção, os países escandinavos sempre se encontram no topo. As ONGs que divulgam os pontos positivos e negativos em matéria de corrupção sempre fazem da Filândia o exemplo a se seguir, a tal ponto que várias nações asianas e sul americanas enviam regularmente estagiários para lá estudarem o famoso modelo escandinavo de boa governança. Do que, verdadeiramente, se trata? Será uma realidade, ou areia lançada nos olhos? Será possível que toda a Europa possa estar mergulhada até a medula na corrupção e que apenas esse pequeno país escape?

Para responder a essas diferentes perguntas escolheremos o mais virtuoso dos três países escandinavos, a Filândia, e, para evitar que se incrimine injustamente a crise econômica como a causa de todas as modificações de comportamento, examinaremos os acontecimentos de 2002 a 2008. Por que a partir de 2002? Porque é o ano da nova lei eleitoral na Finlância. Já 2008 é o começo da crise econômica. Por que  focar essa lei eleitoral? Porque é esse o principal elemento que nos indica se os políticos de uma nação são honestos ou não. O fato de tribunal algum proferir sentença por delito não significa sua não-existência, pois provavelmente os políticos desse país fraudaram o código penal para se proteger de antemão. Isso significa que nas estatísticas jamais se verá condenações por tal delito. Porém isso não quer dizer que esse país seja tão virtuoso. Uma lei pode muito bem ser promulgada para afirmar que um ato de corrupção não é um ato de corrupção; este foi o recurso de Silvio Berlusconi na Itália ao fazer votar pelo Parlamento, mês após mês, todas as leis que impediam a sua prisão, como no caso da despenalização da falsificação dos balanços de uma empresa. A lei eleitoral é reflexo de instante delicado, base da maior das corrupções noutros países europeus. O que diz a nova lei eleitoral finlandesa de 2002 sobre o financiamento de campanhas eleitorais e de partidos políticos? NADA! Não há frase alguma que trate deste assunto. E em direito positivo, tudo o que não é proibido pela lei é autorizado. O pior é que essa lei eleitoral exige a abertura de contas da campanha eleitoral ao fim da mesma, porém como não prevê sanção alguma, ninguém se preocupa com tal prestação de contas.

Esta explicação nos foi dada na primavera de 2008 pelo Presidente do grupo centrista no Parlamento finlandês, o qual jamais abriu suas contas da campanha eleitoral conducente à sua eleição em 2007. Ele teve assim de admitir que se seu partido não mostrou tal transparência foi porque recebeu muito dinheiro de homens de negócios para sua campanha e isso através de um estratagema bem enraizado da uma associação enganar o povo, sob o nomede Kehittyvien Maakuntien Suomi. Ao se esmiuçar o caso descobre-se por exemplo que, através dessa associação, o partido centrista recebeu 145 mil euros de uma empresa imobiliária denominada Nova Group. E o que é a Nova Group? É uma empresa semi-inadinplente e em vias de demitir muitos funcionários. O pior é que é seu PDG (Président-directuer general = Presidente-Diretor Geral) quem reconhecia que, além do dinheiro pago à associação clandestina, ele também pagou diretamente 125 mil euros aos caixas do partido, verba que beneficiou diretamente ao Primeiro Ministro finlandês. E o que ele recebeu em troca? Nada? Ademais pode-se constatar que sua empresa, antes à beira da falência, recobrou o fôlego após as eleições de 2007.

Interrogado sobre esses fatos esse último (o Primeiro Ministro) começou por negá-los para, em seguida, reconhecer o erro irreparável: ele: ele não queria carregar sozinho o fardo da humilhação. O Primeiro Ministro, Matti Vanhanen (centro) avaliou o caso. Todos foram corrompidos! Ele afirmou não passar da árvore que encobre a vasta floresta da corrupção da sociedade finlandesa a qual já dura várias décadas, porém é habilmente oculta do povo e do mundo. Assim, com provas, ele explicou como toda a sociedade finlandesa se achava completamente corrompida, tanto os citados sindicatos finlandesas quanto as empresas públicas, passando pelas associações subsidiadas pelo Estado as quais, por ironia do destino, são muito frequentemente as instituições que irão explicar a “teoria da boa governança” aos políticos ingênuos de alguns países africanos.

A SUÉCIA

Na Suécia a corrupção viceja no próprio coração da realeza. Quando, em 19 de junho de 2010, a princesa herdeira sueca Victoria celebra com grandes pompas seu casamento com Daniel Westling, o povo mal sabia que boa parte dos presentes de casamento era fruto da corrupção. E o maior presente foi a viagem nupcial oferecida pelo bilionário sueco Bertil Hult, Presidente-Fundador da EF education First que emprega 22 mil pessoas em 51 países no negócio das viagens pedagógicas e linguísticas. Segundo duas queixas apresentadas por cidadãos chocados com esse conchavo, foi esse bilionário quem fretou o jato privado que levou os recém casados ao Tahiti, sendo também ele quem os recepcionou pessoalmente após o desembarque e até compartilhou com eles o alojamento a bordo do seu iate, o Erica XII. Como se isso não bastasse o casal real voou para Boston, para a residência do bilionário, para lá terminar a lua de mel. A constatação desses fatos levou o colunista Peter Wolodarski do jornal Dagens Nyheter a afirmar: “É surpreendente que a herdeira da coroa sueca aceite que um milionário lhe ofereça um meio de transporte e um teto durante sua lua de mel, ainda que essa pessoa possa estar interessada (em termos de negócios) a em obter em retorno um pagamento pelos seus favores”. Ademais, numa das queixas pode-se ler: “Tendo visto que o casal, ou pelo menos a princesa herdeira, mantêm (com o bilionário) uma relação de negócios, os presentes em questão poderiam constituir um ato de corrupção”.

A NORUEGA

Também aqui iremos encontrar os traços de uma velha conhecida, a Siemens alemã que exporta a sua corrupção até a Lapônia. Em 15 de dezembro de 2007 eclode o escândalo das férias oferecidas pela Siemens aos generais noruegueses, especialmente o número dois da armada real, o vice-almirante Jan Reksten, chefe do Comando Operacional, e um dos conselheiros próximos do Ministro da Defesa e capitão de mar e guerra Arne Gronningsaeter, bem como de seis outras eminências do reino norueguês. Trata-se de férias para a prática do golfe na Espanha pagas pela Siemens. Mas em troca do quê? Em resposta a este questionamento, a penalização foi mais do que exemplar e os altos funcionários foram sumeriamente exonerados de suas funções. O reino norueguês levou assim menos de 48 horas entre a descoberta do escândalo e o expurgo no seu exército.

A UNIÃO EUROPEIA

Mesmo que a Europa defina a corrupção como um delito, mostra-se forçoso reconhecer que Bruxelas é a capital mundial da corrupção assumida. Copiadas com base no modelo norte-americano de grupos de pressão, chamados lobbys, há oficialmente em Bruxelas 3.500 empresas que se registraram como lobistas e cujo trabalho é o de fazer enorme pressão sobre os legisladores para assim conseguir leis e diretrizes em favor delas e dos seus interesses, e não mais em favor do povo. Mas na realidade existem aproximadamente 15 mil grupos em Bruxelas cujo único motivo da presença e a corrupção ativa de funcionários da União Europeia. A coisa ficou escancarada.

A Comissão Europeia que detém o poder exclusivo de propor e de desenvolver as leis e diretrizes em nível continental criou para esse fim 1.350 grupos de experts de todos os gêneros para cobrir todos os domínios possíveis de vida europeia. E de onde o caro leitor pensa que vêm tais experts para prover os cargos desses 1.350 grupos? Certamente das 15 mil empresas e organismos corruptores compostos por centenas de empresas de relações públicas e de gabinetes de advocacia, bem como de dezenas de think-thanks¹ e dos “escritórios de negócios europeus”. E assim se chega ao paradoxo desses corruptores escreverem as leis nas suas empresas para fazê-las aprovar como princípios do progresso por toda a União Europeia. Assim a sociedade civil, mesmo organizada, fica completamente sem voz e sem influência alguma em Bruxelas, esmagada pelo poderio do dinheiro das grandes firmas multinacionais, que conseguirão fazer passar pela água benta produtos cancerígenos, venenos inadvertidamente absorvidos por toda a população européia convencida de se achar protegida por seus políticos, sem por um só instante imaginar que estes preocupam-se apenas com as próprias contas bancárias.

Esta foi a experiência vivenciada por jornalistas britânicos do semanário The Sunday Times na investigação de como funciona o mecanismo de funcionamento dos lobbies. Dela resultou a prisão de três deputados por fazerem passar, com total concordância, uma lei em favor dos supostos corruptores. Em 20 de março de 2011 esse jornal nos revela que, em troca de 100 mil euros por ano, esses três eurodeputados haviam aceitado a sanção de emendas favoráveis à pseudoempresa apresentada pelos jornalistas disfarçados de lobistas. Nomes dos políticos flagrados:

– O eurodeputado conservador austríaco Ernst Strasser, nascido em 29 de abril de 1956, e antigo Ministro do Interior entre 2000 e 2004. No filme ele é visto embolsando o primeiro maço dos 100 mil euros anuais.

– O outro eurodeputado pronto a vender serviços para os quais o povo nele votara é Adrian Severin, nascido em 28 de março de 1954 em Bucareste, ministro das Relações Exteriores de 12 de dezembro de 1996 a 29 de dezembro de 1997, no governo de Victor Ciorbea. Ele foi deputado romeno de 1990 a 2007 e ex vice-Primeiro Ministro romeno. Severin enviara um e-mail aos falsos lobistas do Sunday Time onde escrevera: “Para informar que a emenda desejada por vocês foi apresentada em tempo” E ele encerra o e-mail com uma fatura de 12 mil euros.

– Zoran Thaler, nascido em 21 de janeiro de 1962, antigo Ministro esloveno de Relações Exteriores entre 26 de janeiro de 1995 e 19 de julho de 1996. Após a demissão do seu predecessor coube a ele chefiar as discussões e assinar em Luxemburgo os Acordos de Associações na EU em 10 de junho de 1996 e, no mesmo dia, o pedido oficial de adesão do seu país à União Europeia. Nas eleições europeias de junho de 2009 ele encabeça a lista dos sociais democratas e entra assim no Parlamento Europeu como membro do grupo socialista democrata dessa instituição.

Como terminou tudo isso?

Em janeiro de 2012 o European Anti-fraud Office (OLAF) do Parlamento Europeu preferiu seu veredito de que esses eurodeputados não haviam violado as regras de funcionamento da União Europeias. Assim todo parece lícito nos países abarcados pela bandeira da União Europeia.

QUAIS AS LIÇÕES PARA A ÁFRICA?

Hoje, em 2012, felizmente não existe uma verdadeira corrupção no continente africano, e pelo simples fato de que nada há para se tomar lá. Aqui e acolá nos deparamos com a falta de civilidade política e econômica. O que torna ainda mais inquietante o futuro, quando o crescimento bem sustentado da economia africana fizer alastrar no continente todas as multinacionais especialistas em corrupção as quais frequentemente já tiveram 80 anos de experiência como a Veolia para dobrar a resistência de qualquer político, é o fato de que não há como nos tranqüilizarmos se a essa conjuntura juntarmos a ingenuidade lendária e habitual dos políticos de algumas nações africanas, frequentemente muito complexados quando em interação com um europeu. Importa desde agora começar a impor rigor em todas essas incivilidades dos funcionários.

– politico algum pode aceitar um convite fora de seu país sem antes conceder explicação sobre a importância desse convite para seu povo.

– tornar inconvertíveis as moedas utilizadas na África, lá onde ainda não o são, a fim efetuar um verdadeiro controle dos fluxos de capitais.

– toda a compra de veículo ou toda despesa além de certo limite deve ser sistematicamente compatível com a última prestação de contas de retorno. Essa prática está hoje em vigor em várias nações do mundo. Na Coreia do Sul, por exemplo, quando se compra um sedã alemão existe 100% de certeza de que no dia seguinte haverá uma visita do fisco.

– reprimir ou proibir comportamentos conducentes à corrupção como, por exemplo, quando um ministro eleito a duras penas vai comemorar sua eleição na cidade natal. Isso é um convite à delinquência pela corrupção, pois se dá indiretamente a essa cidade a impressão o posto obtido é para servi-la e a todos os seus habitantes, e não à nação. A partir daí não é de se surpreender que tal ministro coloque na sua agenda mais encontros cotidianos com seus contatos privados e de trabalhar pelos que o elegeram.

– A redução dos encargos administrativos em muitos setores permitirá eliminar automaticamente bom número de incivilidades. As cópias das certidões de nascimento devem ser como em muitos países do mundo: um simples documento de autocertificado para o requerente. Com base nisso deve-se punir muito severamente os contraventores que tenham prestado declarações mentirosas. Todavia o Estado deve poder infundir confiança nos seus cidadãos. Tal prática liberaria os prefeitos das tarefas puramente administrativas de assinar a cada dia pilhas de cópias de certidão de nascimento, e os redirecionaria para atividades mais úteis à municipalidade.

– multiplicar a publicidade sobre os atos dos políticos eleitos. Os cidadãos devem poder saber a qualquer momento detalhes sobre contratos assinados pelos eleitos, bem como as verdadeiras motivações na escolha dos empreiteiros no mercado público.

– a delação pode parecer moralmente repreensível, porém em vários países essa técnica de disponibilizar um número de telefone ou uma comunicação em perfeito anonimato para o acompanhamento dos procedimentos dos políticos se mostrou muito eficaz para o combate a determinadas incivilidades de funcionários.

Em todos os casos comissão alguma, expert algum poderão resolver o problema da incivilidade dos políticos na África se a população não se encontrar amplamente informada sobre os seus direitos e sobre a armadilha tribal onde os políticos os aliciam para aproveitar sua solidariedade em caso de problemas com o poder judiciário. Apenas uma população avisada e consciente pode ser a verdadeira fiadora da moralidade política. A feudalização da corrupção na sociedade europeia é a prova de que a complexidade de uma futura sociedade pode se transformar numa ilha de corrupção refinada de uma nova forma de máfia denominada PPP, capaz de se incrustar até nos projetos das Nações Unidas ou das Universidades.

Douala, 2 de julho de 2012

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