Não, Mandela não é o meu herói

Mandela foi sepultado anteontem, 15/12/2013, segundo os ritos da espiritualidade africana não-deísta: um boi foi sacrificado para acompanhá-lo no mundo dos ancestrais, coisa muito certa numa África onde os intelectuais se empenham em se fazer sepultar de acordo com os ritos cristãos ou muçulmanos dos seus opressores. Contrariamente à cultura islamo-júdeo-cristã da hierarquização de sociedade até quanto aos defuntos, o compartilhar, a igualdade entre os seres humanos bem como o culto e lugar reservado aos nossos mortos constituem a base da sociedade tradicional africana. Quando certos ocidentais quiseram fazer uma peregrinação à tumba de Mandela, a cultura africana não o permitiu. Isso não foi possível porque nesta cultura cada morto é igual a outro e cada qual tem seu próprio ancestral o qual é seu parente, seu familiar imediato. Mandela torna-se o ancestral de seus filhos, de seus netos, de seus primos, de seus sobrinhos, e por aí vai. Mas não o ancestral supremo dos sul-africanos. Cada pessoa possui seu próprio ancestral, assim tal como Steve Biko é o ancestral de seus próprios familiares, o mesmo se aplica a Mandela. E é esta visão de mundo compartilhado como base da coesão social que representou a origem da luta sustentada por Mandela durante 27 anos atrás das grades. Os que consideraram Mandela comunista simplesmente não compreenderam que a tradição africana não precisa ler Karl Marx para compreender que a injustiça social é o pior inimigo de toda a sociedade, muito antes de qualquer eventual inimigo externo. E foi por haver traído esse princípio africano da luta pela partilha dos recursos sul-africanos que Mandela falhou em sua missão. Tudo se passou como ele tivesse entrado na prisão porque seu povo ardia de vontade de ter um europeu como amigo ou como vizinho. Não, esses europeus se revelaram ladrões, vigaristas, saqueadores das riquezas da África do Sul. Saído da prisão Mandela deu a impressão de bastar dizer ao saqueador que nos deixasse dormir em paz nos banheiros e não mais que restituíssem um mínimo de nossas próprias riquezas.
Não parece muito importante saber se Nelson Mandela é um herói ou não para Pougala. Interessa mais questionar se ele foi de fato um herói para o seu próprio povo. Como o seu povo encarou esses padrões de comportamento entre a miséria cotidiana e a imagem que as populações de origem européia projetavam dele?
Para melhor compreensão retornemos ao dia da cerimônia oficial no estádio de Soweto. Esse estádio que se encontrava desesperadamente vazio. Ademais quando se convidou os 90 chefes de Estado e as respectivas delegações alguns deles vieram até com dois aviões, como o chefe de Estado francês. Quando a isso se acrescenta os numerosos jornalistas submetidos a oito horas de fila para a obtenção de crachás, pode-se então constatar o tamanho do desinteresse da população negra sul-africana por este homem. Contudo o que mais me chamou a atenção não foi o que se passava no estádio principal. Foi o que se passava em outro estádio, o de Orlando, ou melhor, o que lamentavelmente não se passava. Isso porque neste estádio foram instaladas telas gigantes para acolher os muitos sul-africanos os quais não encontrariam lugar no estádio principal… Entretanto este estádio permaneceu também completamente vazio fora a presença de todos esses jornalistas ocidentais a quem as respectivas redações colocavam em linha para noticiarem a participação popular e assim se viam todos obrigados a inventar romances de sua própria imaginação já que não havia qualquer ator para seus filmes, pois a população simplesmente desertara. Pode-se então afirmar que Mandela é mais herói para os brancos do que para os negros, mas por quê?

“A arma mais poderosa nas mãos do opressor é o espírito do oprimido”.

Steve Biko.

Eu acrescento que a maior inteligência do opressor reside em sua capacidade de colocar o oprimido a seu serviço na própria repressão. E de uma forma em que, no final, eles próprios sintam-se contentes em fazê-lo.
Nelson Mandela é este oprimido que “virou completamente a casaca” para se colocar resolutamente a serviço do opressor. Foi duas vezes mais perigoso do que o próprio opressor, pois agia com a procuração deste contra o seu próprio povo, tendo este último, por infortúnio, já abaixado sua guarda, convencido de ter um dos seus no comando.
Que erro! Erro gravíssimo. Aquela pessoa no controle não se achava mais a seu serviço e sim completamente manipulada. Mandela estava a serviço da opressão para único e exclusivo objetivo: o de abocanhar as enormes reservas de recursos naturais do país; portanto a serviço de um punhado de homens e mulheres vindos da Europa, a serviço de uma minoria de forasteiros sempre ávidos pelo dinheiro e sangue desse povo duplamente traído.
Esse mesmo Mandela, o homem bomba, que fez o tour da África e aprendeu sobretudo na África do Norte, todas as técnicas para cometer atentados contra os estrangeiros para assim libertar seu país do opressor e compartilhar as riquezas do país, seu país. Bastaram 27 anos de prisão para anular suas reivindicações por uma sociedade justa. Mandela se colocou a serviço de um sistema ignóbil de injustiça e de exclusão, um dos piores do mundo. E preferiu também s tornar o campeão da futilidade democrática. Tornou-se o idiota útil utilizado para alardear a democracia ocidental.

Entretanto, visto o resultado, foi uma mentira impingida a si mesmo pelo seu autor. Exaltar o mérito da democracia tomando o exemplo da
África do Sul de Nelson Mandela sempre me pareceu piada de mau gosto ou cinismo inominável, pois, como o afirmo a anos, votar jamais mudou o destino de um povo. Votar jamais mudou um país. E o destino das populações africanas da África do Sul antes e depois da horrível violência do apartheid com suas cumplicidades junto a países ocidentais pretensamente campeões da democracia, aí está como testemunha.
Oliver Tambo, presidente do CNA (Congresso Nacional Africano), assim escreveu quando da saída de Mandela da prisão:

“The fight for freedom must go on until it is won; until our country is free and happy and peaceful as part of the community of man, we cannot rest. »

(“A luta pela liberdade deve continuar até a vitória; não podemos descansar até que o nosso país esteja livre, feliz e em paz como parte da comunidade humana, »).

Noutras palavras: “nossa luta pela liberdade deve continuar até a vitória, até que nossa comunidade seja livre e feliz”.

Pergunta: o CNA de Mandela ganhou ou perdeu a batalha em que ele se engajara para libertar seu povo e torná-lo feliz? É o povo sul-africano feliz? Comparado ao período do apartheid ele vivia melhor antes ou hoje? A resposta é inequívoca: Mandela perdeu, o CNA perdeu. E isso em vários níveis:

Com apenas dez dias do falecimento do ex-presidente sul-africano ele já é canonizado pelas mídias ocidentais, realçando portanto a satisfação do stablishment em que este africano fosse muito bem comportado, ou seja, que agisse como o sistema dominante esperava. Até entre os africanos muitos questionam isso.

WINNIE MANDELA – UM DIVÓRCIO POUCO CLARO

Quando Mandela se separa de Winnie o motivo oficial é a infidelidade. Ela teria adulterado com um jovem advogado. Esse ato foi certamente a prova para despertar minhas suspeitas de que Mandela assinara um acordo para se tornar um mestre de cerimônias e não um verdadeiro presidente.

Imagine o homem tal como sempre foi a nós apresentado: tão bom, tão generoso, tão paciente, capaz de perdoar àqueles que lhe tomaram 27 anos de sua vida; capaz de perdoar àqueles que o torturaram e mataram quase todos os seus companheiros de luta. Imagine o mesmo homem perdendo a cabeça por um problema com mulher, rancoroso por uma questão de ciúmes ao ponto de excluir sua esposa do primeiro círculo à sua volta quando de sua investidura à presidência da República da África do Sul. Essa mulher que durante 27 anos lutou, fez o papel de pai e de mãe para os filhos, que lhe fez companhia na prisão, que organizou manifestações, boicotes etc. Elementos abundantes para suspeitas. O documentário (de 111 minutos) apresentado em 6 de dezembro, às 20h50, dia seguinte ao da morte de Mandela pela cadeia Arte-TV e intitulado “Nelson Mandela – o reconciliador” nos oferece fragmento da autêntica verdade. O pérfido acordo assinado por Mandela ante seus carcereiros fora a origem de sua ruptura com sua esposa. Winnie que Mandela repreendera seu marido por haver traído o povo.
De acordo com o documentário, a história remonta a alguns meses antes da libertação de Nelson Mandela. Ele teria sido transferido sem explicação alguma de sua prisão bem como separado de seus companheiros de 26 anos de cárcere, indo para uma luxuosa residência privada, com jardim e piscina. “De agora em diante é aqui que você deve residir. É o padrão que corresponde à tua classe” teriam lhe dito. Assim dito, assim feito. E Mandela se instalou confortavelmente. Sua esposa Winnie Mandela foi levada pelo serviço secreto sul-africano até essa vila. Seria o primeiríssimo dia para Mandela passar sua primeira noite íntima com sua mulher depois de 26 anos de espera. Porém Winnie se recusou. Foi o dia em que o casamento terminou entre os dois. Winnie visita todas as salas da residência sem nada falar, vai à beira da piscina, olha as árvores com lâmpadas coloridas. Ela volta e diz a Nelson que não se sente confortável e que deseja entrar (sair). Winnie compreendera que seu marido havia sido comprado.
Winnie seria prudente e não passaria uma só noite lá dentro. Porém outras pessoas agiriam de modo menos cauteloso, especialmente os membros do CNA os quais iriam conversar nessa vila e contar as novidades com alegria a seu antigo chefe, falando sobre os atentados, os bloqueios, as cumplicidades vividas no meio da comunidade branca, de modo especial entre os brancos comunistas. Mais tarde se saberia que a vila estava grampeada em toda a parte por aparelhos de escuta do serviço secreto sul-africano, e que até as árvores do jardim tinham microfones. Assim mesmo antes de lhe propor negociação o Sr. Botha, inicialmente, e depois De Klerk já haviam recolhido o máximo de informações sobre Mandela e as estratégias que pretendia levar a cabo. Em qualquer negociação, se você pode antecipar as fraquezas do interlocutor, você ganhou a partida. Assim tudo seria concluído em detrimento da comunidade negra já que os brancos em nada cederam às reivindicações do CNA.
O mais surpreendente para todos os membros do CNA é que Mandela, ainda encarcerado, decidiu negociar com seus algozes o futuro de 80% da população sul-africana sem consultar pessoa alguma no partido que, por 27 anos, portara a bandeira para que ele não fosse esquecido e também para que não o matassem na prisão. Assim pessoa alguma soube o que realmente se passou. Ele jamais deu explicação sobre essa decisão.
E então chega o dia da libertação. Uma verdadeira mise em scène com recitação digna dos filmes de Hollywood: Winnie, ciente de que o marido traíra a todos, o acompanha de mãos dadas e levanta o outro braço com o punho cerrado. Nesse momento o povo desconhece que Mandela na verdade não saíra da prisão. Ele gostou tanto dessa casa que construiu até uma réplica exata na sua cidade natal, onde foi sepultado. Os desdobramentos dos acontecimentos, nós os conhecemos: renúncia ao programa do CNA o qual determina claramente a carta da liberdade (freedom charter) bem como a redistribuição de terras, a nacionalização das empresas estratégicas nos setores de minas e energia.
Pura quimera. Em vez disso ocorreu a maior maquinação mundial de insulto à memória das vítimas da escravidão, da colonização e do apartheid. Banalizar a este ponto o sofrimento de todo um povo, ao ponto de pedir às vítimas da violência cega do apartheid que viessem testemunhar para dizer como elas haviam feito para usar seu instinto de sobrevivência para se proteger dos crimes do sistema de espoliação. Um suplício sofrido por nada pelo povo negro sul-africano por causa de seu líder: Mandela.
Curiosamente esta comissão não lançou luz alguma sobre o assassinato de figuras de primeiro plano do CNA, como Steve Biko. E por que ela também não nos disse que o serviço secreto sul-africano dera a ordem de assassinar o primeiro ministro sueco, Olof Palm, na sexta-feira de 28 de fevereiro de 1986 às 23h21, por causa de seu combate contra o odioso sistema do apartheid? Pior, a CVR (Comissão da Verdade e Reconciliação) não fez alusão alguma a procurar descobrir o que fazia o espião boers Craig Williamson em Estocolmo no dia do assassinato de Palme. A farsa da CVR nos omitiu qual o gênero de substância tóxica foi inoculado no presidente fundador do PAC (Pan Africanist Congress) durante seus anos de prisão, pois por que após sua saída da prisão em 1969 ele vai morrendo aos poucos até 1978. Quem em seguida assassinou seu sucessor no exílio, David Sibeko, em 12 de junho de 1979 em Dar-es Salam na Tanzânia? A CRV nada nos disse sobre como o serviço secreto sul-africano sabotou o avião do presidente moçambicano Samora Machel causando sua morte em 1984 devido ao seu apoio ao braço armado do CNA no seu território e aos campos de treinamento a ele cedidos. E, sobretudo, quem deu a ordem para matar o presidente moçambicano? Resposta: a Comissão da Verdade e Reconciliação.
O Instituto Holandês para a África Austral, dirigido por um certo Peter Hermes, quando convocado por esta Comissão da Reconciliação e Verdade para esclarecer o assassinato em Paris da representante do Congresso Nacional Africano na França, declara no seu relatório à comissão:
“Dulcie September foi morta em 29 de março de 1988 pelo serviço secreto sul-africano com a cumplicidade do serviço secreto francês (…) Dulcie September era alvo fácil para o serviço secreto sul-africano que considerava o movimento antiapartheid não suficientemente mobilizado na França para provocar manifestações em Paris, ao contrário de Londres e Amsterdam. Contudo o verdadeiro motivo do assassinato bem poderia ser outro: O grande interesse de Dulce September no comércio de armas entre Paris e Pretória.”
Pergunta: por que a comissão não exigiu à França que viesse se explicar e pedir perdão ao povo negro da África do Sul? Ou ao seu ministro do interior à época, Charles Pasqua, cujo nome é citado no relatório? Ou será que toda essa encenação serviu apenas para os algozes confundirem suas vítimas?
Para se combater a violência psicológica dessa iniciativa, e ante a dor de vítimas já traumatizadas por longos anos de violência policial e militar do apartheid, convinha ademais lhe pedir que viesse testemunhar em troca do armistício geral. A pergunta que sempre me inquietou nesse assunto era: por que os ocidentais, ao sugerirem a Mandela uma tal comissão de reconciliação, jamais a aplicaram a si mesmos? Eis um exemplo:

QUAIS FORAM AS COMISSÕES NA EUROPA AO FIM DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL?

NA ALEMANHA: o Processo de Nuremberg.

O processo de Nuremberg transcorreu entre 20 de novembro de 1945 e 1 de outubro de 1946 para julgar 24 membros do terceiro Reich, definindo então o nazismo como crime contra a paz e crime contra a humanidade.
O mais curioso é que esse tribunal se investe de poderes que ele não possui, emitindo sentenças retroativas. Noutras palavras, esse tribunal especial, sem base em qualquer texto jurídico internacional, viola todas as convenções para assim atingir o único objetivo de marcar uma ruptura com o triste período do nazismo e os homens que o encarnaram.
Em primeiro de outubro de 1946 vem o veredicto: todos os recursos de defesa são rejeitados. Muitas são as pesadas condenações, 12 entre as quais à morte. Muitos dos prisioneiros se suicidam antes do fim do processo. Em 16 de outubro os condenados são rapidamente enforcados.
O processo de Nuremberg faria uma vítima memorável: um inocente seria declarado culpado e enforcado antes da percepção do erro cometido alguns anos depois. Trata-se do caso do oficial Alfred Josef Ferdinand Jodl, nascido em 10 de maio de 1890 em Wurtzbourg e enforcado em 16 de outubro de 1956 em Nuremberg. Em 2 de março de 1953, ou seja, quase sete anos depois de sua execução o Tribunal de Munique ira declará-lo inocente. Tarde demais, ele já fora afoitamente enforcado para assim se fechar o capítulo do nazismo.
Por que aqueles que acharam útil instaurar um tribunal em Nuremberg na Alemanha, para então julgar os líderes de um sistema de violência e de discriminação como o nazismo, aplaudem que na África do Sul não se faça da mesma maneira fim ao apartheid? Existirão dois pesos e duas medidas a cada vez que se trate de aplica as regras elementares no tangente aos direitos dos negros

E NA FRANÇA? A purificação.

Para o general De Gaulle, encorajado e sustentado pelos norte-americanos e os britânicos, todas as pessoas cúmplices junto aos invasores alemães não mereciam viver. Não convinha que esse gênero de gente pouco recomendável pudesse poluir o novo curso da História com suas torpes condutas de cumplicidade com os crimes do regime anterior. Assim a França, uma vez terminada a guerra, pôs em prática uma das depurações mais cruéis da história da humanidade. Dessa forma, segundo o quotidiano francês Le Figaro de 6 de abril de 1946, um milhão de franceses que haviam manifestado qualquer simpatia para com o invasor durante a guerra foram capturados e encarcerados, isto é, 1/10 da população ativa, conforme detalha o quotidiano. Em apenas dois anos mais de 100.000 desses prisioneiros seriam executados e seus bens confiscados.
No número especial da revista Défense de l”Ocident um estudo publicado em 1951 sobre o fenômeno da purificação afirma: “caso se inclua no cálculo as pessoas afetadas a título da purificação profissional, que perderam seus postos, seja sob a pressão dos sindicatos, seja pelas diversas causas relacionadas à aplicação da legislação da purificação, a cifra de franceses que perderam sua condição ou seu ganha-pão como conseqüência dessa política ultrapassou em muito um milhão de pessoas”.
E quantas pessoas foram executadas a título da purificação?
Para sabê-lo voltemos a fevereiro de 1954, quando o ministro do interior francês no governo de De Gaulle, o socialista Jean Tixier, remete ao coronel Dewavrin relatórios de prefeitos nos quais se indicava claramente que, de junho de 1944 a fevereiro de 1945, 105.000 franceses tinham sido executados por ordem do general De Gaulle por cumplicidade com o inimigo durante a guerra.
Em 1951 é promulgada então a lei nacional de reconciliação nacional, a chamada Lei Minjoz de 5 de janeiro de 1951 para anistiar todos os crimes cometidos até primeiro de janeiro de 1946 pelos tenentes de De Gaulle. Esta comissão de reconciliação nada mais era do que a autoanistia daqueles que acabavam de assumir o poder no caso de que alguém viesse com a perigosa ideia de questionar tal conduta e submetê-la à justiça.
Tal purificação não poupou pessoa alguma, pois até os militares foram seriamente atingidos. Calcula-se que dentre os 30.000 homens de armas 20.000 tenham sido vítimas da purificação.
Até a imprensa experimentou a purificação; todos aqueles que haviam escrito a mínima frase positiva referente à ocupação nazista foram imediatamente detidos. A maior parte das casas editoriais francesas foram simplesmente fechadas.

AZANIA

Durante o período do apartheid havia uma palavra de ordem entre os chefes de Estado africanos: jamais utilizar o nome África do Sul para designar o país onde Mandela se encontrava preso e sim AZANIA conforme vontade dos dois partidos antiapartheid postos fora da lei na ocasião, o CNA e o PAC (Pan Africanist Congress) o qual seria até rebatizado para Pan Africanist Congresso of Azania. Isso pela estranheza causada caso um país se chamasse EUROPA DO SUL, ÁSIA DO SUL OU AMÉRICA DO SUL. Eles nos haviam dito que, no dia em que os negros vencessem a batalha, o país se tornaria a AZANIA e isso foi o que se ouviu em todos os discursos oficiais em Kinshasa, Nairobi, Dar-Es-Salaam ou Yaoundé, pois os chefes de Estado utilizavam sistematicamente o nome Azania para falar da África do Sul e assim assinalar sua adesão à luta, tanto do PAC quanto do CNA. Isso até o dia em que um certo Nelson Mandela sai da prisão e, sem dar explicações a quem quer que fosse, esquece a palavra Azania para utilizar ele próprio, tal como os boers, o nome África do Sul. Imagine a surpresa de toda a África que, para manter a chama sempre viva, seguira à letra as indicações do CNA bem como do outro partido antiapartheid, o Congresso Pan-africano (PAC). E não houve sequer uma conferência de imprensa para explicar essa súbita reversão.

BANCO CENTRAL SUL-AFRICANO

Em todo o continente africano a África do Sul é o único país onde o banco central se encontra nas mãos de iniciativa privada. Isso significa que os negros lutaram durante anos para reivindicar o direito sobre seus recursos e eis que no momento em que se revela a boa nova segundo a qual Mandela teria feito milagres esse povo afunda na verdade numa das piores ditaduras econômicas a raciais do continente africano. São com efeito dos mesmos racistas de ontem os que imprimem até o dinheiro utilizado por todos os sul-africanos. Mandela não achou conveniente atacar essa anomalia aparentemente bem sul-africana.
Equivocadamente se acreditou tratar-se de um problema sul-africano, limitado portanto àquele país. Infelizmente, porém, a África do Sul é o laboratório onde se experimenta a maior parte das coisas que serão em seguida aplicadas em toda a parte da África Subsahariana. Veremos como nas linhas que se seguem.

SETORES PÚBLICOS E PRIVADOS NA ÁFRICA DO SUL, PREDADORES NA ÁFRICA

Aqui em Camarões existem duas operadoras privadas de telefonia móvel: a operadora sul-africana MTN (Mobile Telecomunications Networks) e a operadora francesa Orange. Eu já vi pessoas me explicarem que preferem a MTN porque é uma empresa africana. Penei para lhes explicar que a MTN e a Orange têm exatamente os mesmos acionários e que obtêm do mercado camaronês os mesmos benefícios, os mesmos lucros. E tais acionários, sejam residentes na África do Sul ou na Europa, são todos da mesma origem: a de uma população europeia.
No domínio financeiro, por exemplo, estes são os dois setores público e privado com comportamento predatório para assim, dia após dia, se apoderarem do setor financeiro de toda a África. A estratégia começa com o envio de verbas aos caixas de certos bancos que estão numa procura desesperada por liquidez e, em seguida, como estes se mostram incapazes de reembolsar, é a sociedade sul-africana que dispõe assim do capital desse banco. Muitas vezes, mesmo quando o banco pode reembolsar essas dívidas, a sociedade sul-africana não quer mais o seu dinheiro. Tudo o que lhe interessa é entrar no capital da sociedade africana em questão. Isso foi, em todo o caso, o ocorrido com o banco togolês Ecobank, criado nesse país em 1985, o qual, com a sua presença em 32 nações africanas, podia se gabar de ser o banco mais difundido no continente. Em 2011 este banco que está cotado na bolsa de valores de Johannesburgo, fica no caminho de uma instituição desconhecida pelos africanos, a qual, entretanto, é a pior predadora de todo o continente. Trata-se da Public Investment Corporation (PIC). Isso porque é um estabelecimento público gerado diretamente pelo governo sul-africano. Trata-se de um fundo independente criado em 1911, para a geração de fundos de pensão para os aposentados do serviço público sul-africano. E quem são estes aposentados? Bem, 95% deles são certamente as populações brancas que serviram ao odioso regime do apartheid. Seu botim de guerra é colossal no nível africano e capaz de colocar de joelhos qualquer empresa pública ou privada. Seu provimento alcança 1.000 bilhões de Rands sul-africanos, isto é, cerca de 100 bilhões de dólares. Em abril de 2012 a PIC se torna a principal acionária do Ecobank, possuindo 20% do seu capital.

Quando em setembro de 2013 o Ecobank publica seus resultados dos três primeiros trimestres anuais — apresentando lucro de 250 milhões de dólares, numa rentabilidade 65% maior em relação ao ano anterior – é o banco sul-africano Nedbank a instituição empossada para exigir sua parte do bolo e que simplesmente decidiu, contra a vontade do Ecobank, converter seu empréstimo de 285 milhões de dólares em ações. Ou seja, ele também detém 20% do capital do Ecobank. Mas afinal o que é este Nedbank? Pura e simplesmente a filial sul-africana da seguradora britânica Old Mutual. Eis como, em definitivo, a Grã-Bretanha juntamente com o Estado sul-africano de Jacob Zuma se apossa do mais importante banco africano, numa prova efetiva de como a África do Sul nas mãos de Mandela se tornou o starting-point (ponto de partida) do ultraliberalismo na conquista de todo o continente africano.
Em Gana, no ano de 1999, é o banco sul-africano Standard Bank quem inicia, a partir desse país, o seu assalto à África, apossando-se muito facilmente de 93% do Union Mortgage Bank então renomeado Stanbic Bank Ghana. Já em 2012 seria o sul-africano First Rand que, com apenas 750 milhões de Rands, isto é, 75 milhões de dólares, tomaria posse do Marchant Bank Ghana. E quanto mais as empresas ganesas se veem engolidas pelas britânicas e sul-africanas tanto mais as mídias mentirosas nos mostram como Gana é uma nação virtuosa.

ESCARNECER DA MISÉRIA DOS NEGROS É LEGÍTIMO NA ÁFRICA DO SUL

A África do Sul é o único país do mundo onde o saqueador europeu, devido à farsa conducente à impunidade pela suposta reconciliação, se permite o sarcasmo com a miséria das suas vítimas bem como a zombaria com a pobreza extrema dos negros que o sistema do apartheid, validado por Mandela, manteve até hoje.
Isso, em todo o caso, é o que oferece o boers Buks Westraad, proprietário do Emoya Hotel & Spa nesse país, para assim proporcionar a seus afortunados clientes de curta estadia a chance de jogar os miseráveis bem no fundo da sarjeta da miséria humana.
Ele inventou nome bem exótico para tal iniciativa: Shanty Town. O turismo da miséria.
Eis a mensagem publicitária escrita por Buks Westraad em seu panfleto:
“Cabanas de folhas de lata, lamparinas a petróleo, rádios a pilha, banheiros externos. Nós lhe faremos descobrir as joias da vida numa favela, sem poluição sonora, sanitárias e os crimes inerentes.
Você poderá então experimentar a vida numa cabana, num ambiente seguro de uma reserva privada.
Eis a única favela do mundo equipada de um aquecimento solar e de uma conexão sem fio com a internet!
Nossas cabanas são totalmente seguras e adaptadas para crianças”.
Tal cinismo dispensa comentário. Também eu tenho vontade de, no futuro, falar de uma África do Sul em paz, porém com provocações assim receio que até o mais paciente dos sul-africanos pobres não fique passivo por mais muito tempo.
Tal iniciativa chocou o mundo inteiro, até os Estados Unidos da América, onde o pensador Stephen Colbert a qualificou simplesmente como:
“At Best insensitive, anda t worst, poverty porn” significando: “na melhor das hipóteses insensibilidade, e na pior a ponografia da pobreza”

Na Austrália

Eis a manchete do jornal News de 20 de novembro de 2013 sobre o assunto:
‘Luxury shanty town’ Emoya Estate called ‘poverty porn’ in South Africa” (Favela de luxo. O Emoya Estate é chamado de pornografia da pobreza na África do Sul).
Subtítulo: : « A RESORT that allows rich people to live like poor Africans in shanty towns while enjoying five-star comforts has been labelled « poverty porn. » (Um resort que permite às pessoas ricas viverem como africanos pobres em favelas enquanto desfrutam simultaneamente do conforto cinco estrelas foi chamado de a “pornografia da pobreza).

Na França

É o quotidiano METRO do mesmo 20/11/2013 assim falaria sobre essa novidade: “Na África do Sul uma falsa favela para ricos com sentimentos maus”.
Subtítulo: “Na África do Sul o Emoya Hotel & Spa proporciona experiência bastante singular: passar alguns dias na pele de um ‘africano pobre’ porém com água corrente, eletricidade e Wi-Fi. Afinal há limites para a precariedade”.
Apenas na África do Sul tal anúncio não causaria repulsa e tampouco as autoridades julgariam necessário proibi-lo. Ante o regime de reconciliação nacional corro o risco de acusação de incitar os negros à revolta. E, como diria Voltaire em Cândido: “Tudo vai da melhor maneira no melhor país do mundo possível”… A África do Sul. Mas até quando?

SANTIFICAR MANDELA PARA HUMILHAR AINDA MAIS OS PRESIDENTES AFRICANOS

Existe estratégia bem definida para, doravante, se utilizar a imagem de Mandela para humilhar os dirigentes africanos menos dóceis. O cotidiano católico francês “La Croix”, um dia após a morte de Mandela, exemplifica bem isso em sua publicação. Em sua edição de 7 de dezembro de 2013 e pela voz de seu principal jornalista, Laurent Larcher, é apontada a estratégia a seguir. Ele aproveita a cúpula sobre defesa em Paris para perguntar a quatro jornalistas africanos o que eles discerniam de novo com a morte de Nelson Mandela. E, antes mesmo de comentar o balanço da vida desse homem, todos os quatro elaboraram unanimemente charges contra esses mesmos presidentes os quais eles haviam acompanhado até Paris para tal cúpula. A instrumentalização de Mandela mal começou e, no mínimo nos tomando todos por idiotas, como pode um jornalista estender seu microfone para três jornalistas africanos para falar da morte de alguém e todos, todos mesmo, falem prontamente contra os chefes de Estado africanos. A coisa me parece deveras suspeita. Eis as palavras publicadas no cotidiano:

“LÁGRIMAS DE CROCODILO”

Este subtítulo remonta às palavras atribuídas ao jornalista guineense Lanciné Camará, presidente de União Internacional dos Jornalistas Africanos (em Paris): “São lágrimas de crocodilo. Eles saúdam a memória do herói da resistência e, entre eles, fazem o contrário. Eles se agarram ao poder ao passo que Mandela cumpriu apenas um mandato. Eles privatizam o poder familiar, eles se estagnam no espírito étnico para se manter na chefia do Estado enquanto Mandela manteve sua família à distância do poder e jamais incitou as etnias umas contra as outras como fizeram Paul Biya, Sassou Nguesso, Idriss Déby, Baise Compaoré… Poderão eles saudar a memória desse grande homem sem traí-la? Que comecem logo a fazer como Mandela: saibam sair de cena para dar lugar à alternância do jogo democrático.

“UMA GRANDE TAPEAÇÃO”

Quando li este título logo pensei tratar-se da representação dos ocidentais pela morte de Mandela. Mas não, a tapeação é a dos chefes de Estado africanos. Leia as seguintes afirmativas atribuídas a Freddy Mulongo — da República Democrática do Congo, enviado especial à cúpula de Paris – noticiadas pela Rádio de Kinshasa de nome “Réveil FM International: “As homenagens dos chefes de Estado africanos, tirando raras exceções, são pura fachada e hipocrisia inacreditável. Alguns deles chegaram ao poder pelas armas, como Blaise Compaoré; outros fraudando eleições e transgredindo as constituições. Mandela jamais fez isto. E seu trabalho em prol do diálogo, da criação da Comissão da Verdade e Reconciliação inspirou muitos chefes de Estado sem jamais lhes dar um conteúdo sério como, por exemplo, no meu país, a República Democrática do Congo. E em ralação aos jornalistas? Quantos jornalistas Mandela colocou na prisão? Nenhum! Estou pasmo com o circo em torno dessa grande figura que acaba de partir!”

“ALÉM DE TODO CÁLCULO POLÍTICO”

A Sra. Houmi Ahamed-Mikidache é uma jornalista de Comores e correspondente do seu país em Paris do semanário L’Inquisiteur. “É normal lhe renderem homenagem. Convém todavia que outros sigam seu exemplo noutros domínios. Carecemos de um Mandela que combata a favor da educação, da saúde e do desenvolvimento da África!” O fato de residir em Paris tornará os jornalistas africanos incapazes de se desvencilharem da campanha das mídias públicas francesas como a RFI (Rádio França Internacional) e France 24 sempre articuladas contra os presidentes africanos menos dóceis? Terão eles medo de não verem o visto de permanência renovado ou será apenas a mediocridade jornalística?

A VERDADEIRA LIBERDADE É A ECONÔMICA; MINHA DESVENTURA SUL-AFRICANA POST CRV (Comissão da Verdade e Reconciliação)

Esta história se encontra na página 202 do meu livro autobiográfico In Fuga dalle Tenebre (Fugindo das Trevas) publicado em 2007 pela Einaudi na Itália. Nele narro minha desventura sul-africana a qual me levaria a concluir que Mandela se equivocara em todos os planos, pois não existe independência sem autonomia financeira. Não existe libertação de um povo das cadeias da escravidão sem os meios econômicos que permitam a efetividade de tal libertação, do contrário esse anseio se transformará num pesadelo para as pessoas que nas suas vidas não conheceram outra coisa além da submissão.
A história se passa em 1997. Alguns meses após o veredito da Comissão da Verdade e Reconciliação de 28 de fevereiro de 1997 que supostamente abriria o país para um futuro mais calmo. Minha empresa italiana tinha como objetivo principal a construção de usinas de chaves. O entusiasmo com a libertação e a chegada de Nelson Mandela ao poder me motivou a procurar desenvolver minhas atividades em terras sul-africanas. Foram estabelecidos contatos com uma empresa de produção agroalimentar instalada numa das zonas industriais de Johannesburgo. Durante vários meses precisei usar a “artilharia pesada” para assim convencer essa empresa a preferir minha solução em vez daquelas dos meus concorrentes britânicos, alemães, dinamarqueses e norte-americanos. Ofereci melhores preços com um serviço de garantia pós-venda através dos mais competentes engenheiros sempre prontos a intervir na África do Sul dentro de prazo razoável. O pedido incluía a solicitação de várias máquinas. Durante meses ocorreram inúmeras trocas para o recebimento de amostras dos produtos sul-africanos destinadas a testes e a soluções técnicas ideais. Fui convocado várias vezes à alfândega do aeroporto internacional de Turin, pois eles não compreendiam o que eram esses pós vindos regularmente da África do Sul. Ante a dúvida e tendo a enésima análise laboratorial para a certificação de que não se tratavam de substâncias proibidas, eu tinha ainda assim de, a cada vez, fornecer explicações sob juramento de que esses pós não eram droga. Isso até o dia em que tudo foi validade no nível técnico. E para a assinatura do contrato final eu deveria viajar para a África do Sul. Recebi a primeira ducha fria no consulado de Milão que, devido a meu passaporte camaronês, exigiu de mim depósito de significativa quantia em conta bancária do consulado da África do Sul. Essa soma me seria restituída após meu retorno para assim haver a garantia de que eu não permaneceria lá definitivamente. Minha decepção vinha do fato de que eu trocara logo de passaporte para dessa forma obter um outro onde não estava mais escrito que eu poderia ir à África do Sul, isso por respeito ao boicote articulado por países africanos. O italiano que não boicotara o apartheid podia viajar para aquele país sem visto, mas não eu, o camaronês que participara do boicote.
Qual o problema? Eu só ia assinar um dos maiores contratos da minha vida. Eu obtivera meu primeiro passaporte de primeira classe para as 12 horas de voo de Turin a Johannesburgo via Paris. Graças às minhas frequentes viagens minha somatória de milhas me permitiram embarcar. Contudo foi a primeira vez que paguei um lugar na primeira classe para viagem tão longa. Ao chegar a Johannesburgo num domingo, conforme o combinado, o hotel enviou sua condução em minha procura. Na manhã de segunda-feira, muito contente, informo por telefone a minha cliente (disposta a me enviar um motorista) que eu tinha chegado bem ao território sul-africano e que já alugara um carro com motorista para minha estadia e que chegaria a qualquer momento à fábrica. Após cerca de 45 minutos de trajeto entramos na zona industrial de Johannesburgo. Na guarita da fábrica em questão havia um vigia. Ele perguntou quem queríamos ver. Dei o nome. O vigia pegou seu telefone e conversou com esta pessoa na língua boers. A discussão se arrastou. Várias pessoas se alternaram no outro lado da linha para pedir explicações ao vigia. Eles aguardavam alguém proveniente da Itália, do estrangeiro, um certo Dr. Jean-Paul Pougala o qual não podia ser eu ou ao menos, para eles, não podia ser um negro. Depois de exaustivos detalhes dados a meus diferentes interlocutores, meu motorista de etnia zulu me sussurrou: “o vigia está dizendo a eles que você é negro como piche”. E aí estava o problema. O vigia repetia sempre aos sucessivos interlocutores do outro lado da linha que o Pougala diante dele não era nem francês, nem belga, nem suíço, mas simplesmente negro como piche. E após uma hora corrida desse circo monstruoso veio a sentença: eu tinha sido declarado personae non grata (pessoa indesejável) dentro da área do terreno da empresa e me pediram que fizesse meia volta para o hotel e meia volta para a Itália, sem qualquer outra explicação. Encontrávamos na nação chamada de arco-íris onde subitamente brancos e negros haviam se tornado amigos, contudo eu não possuía a cor de pele apropriada para me encontrar lá, para falar de economia, para falar de indústria, para tocar numa porção do eldorado sul-africano. Minha viagem de retorno foi sem dúvida alguma a mais longa da minha vida. Quantas perguntas não respondidas passaram pela minha mente…
Na época de estudante fui espancado por jovens italianos aos gritos de: “macaco, volta para tua floresta!”. Apesar das profundas feridas em todo o corpo a polícia de Perugia se recusou a aceitar minha queixa, classificando meu caso como o de um simples bêbado. E o hospital daquela cidade recusou-se a me prestar atendimento sob o pretexto de que minha condição de estudante africano me concedia uma cobertura médica válida unicamente para o transporte do meu cadáver até meu país de origem. Não me restou outra escolha senão a de ir para a casa e esperar serenamente que a dor durasse o tempo natural e cessasse por si mesma.
Devido a uma pergunta que respondi inadequadamente durante um exame oral, no quarto ano de Universidade, meu professor de Política Econômica afirmou diante de todos os meus colegas italianos que eu era o mais idiota de todos os estudantes que ele conhecera em toda a sua longa carreira de professor universitário, pois, segundo ele, os africanos tinham um melão no lugar do cérebro. Ferido por tanto desprezo e desconsideração não pude conter as lágrimas.
No voo da Air France que me levou de Johannesburgo a Paris pessoa alguma me insultara, pessoa alguma me dera um golpe, porém a dor que eu sentia no mais profundo de mim era dez vezes mais atroz do que aquela infligida pelos militantes italianos de extrema direita ou pelos insultos do meu professor italiano. Essa dor se mostrava ainda mais insuportável pela grande hipocrisia em torno da libertação de Nelson Mandela, ocasião em que todos os antigos racistas pareciam haver descoberto subitamente as virtudes da vida em harmoniosa companhia. O mais crédulo nesta fábula tinha sido o próprio Nelson Mandela. O que ele não compreendera era que os racistas de ontem haviam aceitado jogar o jogo na medida em que este nada lhes tirasse e, sobretudo, na medida em que eles tinham a certeza de que os negros não se aproximariam do seu domínio reservado, a economia, na medida em que eles não reivindicassem sua parte do bolo da riqueza sul-africana.
Apenas recursos financeiros consolidam a coesão de uma nação, mesmo a do arco-íris. Enquanto a maioria das populações forem excluídas da partilha das riquezas da África do Sul não se precisamos ser economistas ou videntes para prever que, cedo ou tarde, haverá um colapso. Os estádios vazios de Soweto e Orlando, as vaias ao presidente Zuma na cerimônia oficial para o funeral de Mandela provam que o povo se encontra desiludido, percebendo o engano por políticos comprados pelo sistema dominante, e que definitivamente a suposta democracia serviu apenas para validar os nomes que esse sistema já escolhera cuidadosamente dentro do seu modelo desejado o qual não visa a competência e sim a ingenuidade e o grau de submissão dos candidatos.

QUAIS AS LIÇÕES PARA A ÁFRICA?

Agrada-me concluir como iniciamos, com o meu herói.
No “Jardim da Memória”, em King William’s Town, cemitério onde está sepultado Bantu Stephen Biko, lemos a seguinte frase de autoria do próprio Biko:
“Mais vale morrer por uma ideia que sobreviverá do que viver por uma ideia que terminará por morrer”. Biko está morto por uma ideia de justiça social, de partilha de recursos e de harmonia social como garantia de paz a longo prazo, e cedo ou tarde, se a África do Sul deseja a paz, a verdadeira paz e não esta bomba relógio chamada injustiça social, ela se vê obrigada a seguir este caminho. Mandela ao contrário viveu por uma ideia que terminará por morrer: a de mentir para o povo, a de discriminá-lo pela economia e assim marginalizar socialmente a quase totalidade de seu povo dentro de um sistema dominante sempre ardilosamente opressivo, com os grilhões da escravidão bem presos nos pés e mãos das populações africanas da África do Sul e que fez dele, Mandela, seu porta-bandeira. Num artigo publicado no quotidiano do Zimbábue The Herald em 10 de dezembro de 2013 e intitulado Was Mandela an African Hero? (Foi Mandela um herói africano?) o pensador zimbabuano Ranga Mataire sustenta que a mudança ultraliberal de Mandela o exclui definitivamente da lista dos heróis africanos como Kwame Nkrumah, Sekou Toure, Abdel Nasser, Kenneth Kaunda, Julius Nyerere, Robert Mugabe, Joshua Nkomo, Patrice Lumumbra, Samora Machel, Steve Biko ou Chris Hani, pois o fato de haver sustentado e acompanhado o ultraliberalismo constitui a prova de que ele se colocou a serviço do opressor, indo contra o seu próprio povo, diferentemente de todos esses heróis africanos, de Nasser a Hani. Para prová-lo ele toma como testemunho as palavras pronunciadas pelo próprio Mandela na sua defesa ante o processo de 1964 previsto para terminar com a sua condenação à morte. Mandela se diz pronto a morrer para que seu povo tenha “igualdade de oportunidades”. Mandela deixa a condição de herói africano na sua saída da prisão, ocasião em que esquece as razões do princípio da “igualdade de oportunidades” pelas quais estivera pronto a morrer. Agora está pronto para uma encenação chamada Perdão e Reconciliação. Por que os EUA que o induziram a tal desatino nunca fizeram a paz com a Rússia? Por que nunca se reconciliaram com Cuba? Por que Israel continua a caçar em todo o planeta e até a morte todos os criminosos alemães implicados no holocausto? Estarão assim tão loucos em continuar tal caçada já a mais de 60 anos do fim da segunda guerra mundial? Por que todos os países europeus que aplaudem Mandela por essa reconciliação não libertam todos os assassinos de suas prisões para então tomarem a boa iniciativa de pedirem perdão às famílias das vítimas e remir todos os seus crimes e dessa maneira criar um amanhã onde todos voltem à condição de “irmãos e irmãs”? Isso simplesmente não é possível porque o ser humano não responde a esta lógica. Com diz Hannah Arendt, os genocídios, os crimes de massa fazem, paradoxalmente, parte da normalidade humana. E apenas uma ação reflexa que misture a repressão e o perdão permite a criação da ruptura e da violência de ordem contra essa normalidade humana da violência e do crime. Na África do Sul o perdão sem a repressão representou uma falta histórica que, na verdade, serviu apenas para aos olhos do mundo a ingenuidade dos negros, crédulos ao ponto de crerem que se vira a página da escravatura sem uma terapia de grupos entre as vítimas e sem acerto de contas com os algozes. Os erros cometidos pela escravatura foram reprisados e repetidos pela colonização e, em seguida, pelo apartheid, propiciando aos europeus a arrogância de inundar o continente africano com seitas cristãs para, dizendo eles, ensinar o humanismo e a moral aos africanos.
Na sua saída da prisão Mandela não teve a coragem própria de um herói o qual deve ir frontalmente contra um sistema de opressão e humilhação do seu povo. Conceder o cargo de vice-presidente a De Klerk revela sua consciência de que todo o sistema se manteria, comandado pelas mesmas pessoas, sem o menor receio de ter de prestarem contas do sistema odioso por elas representado. Hoje o resultado cobra alto preço: os kraals onde se confinavam os negros durante o apartheid simplesmente mudaram de nome e passaram a se chamar favelas; tal como no apartheid ali falta tudo: nada de eletricidade, nada de banheiros, nada de água e sim cenários de miséria total onde, segundo relatório das Nações Unidas de 2011, viviam 30% da população negra sul-africana (percentual inalterado ao longo de 30 anos).
Tabo Mbeki, sucessor de Mandela e ex-presidente, tentou sem sucesso nacionalizar a maior empresa de eletricidade do país que, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), força o fechamento de fábricas e de minas devido aos seus freqüentes cortes de energia, sendo portanto responsável pela queda no crescimento da África do Sul em percentuais que oscilam entre 5% a 3% entre 2008 e 2009. Caberia a Mandela aproveitar o próprio carisma para implementar essas nacionalizações como passagem obrigatória para a reestruturação econômica do país sobre bases de reequilíbrio e redistribuição das riquezas. Entretanto ele não teve a coragem de tocar nesses privilégios pertencentes a uma classe predadora prestes a provocar o retrocesso da sociedade sul-africana. E por isso eu digo: Não, ele não é meu herói!

Yaoundé, 17 de dezembro de 2013.
Jean-Paul Pougala (ex-cortador de cana)
Traduzido do francês para o português por Attila Blacheyre, UnB – Universidade de Brasília

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